Segunda-feira, Março 13, 2006

 

O processo pornográfico

Agora que o Processo Casa Pia chegou ao estado a que chegou (estagnação) convido-vos a considerarem algumas reflexões avulsas que elaborei sobre a matéria. Antes de mais, o que está realmente em causa no Processo Casa Pia? Em primeiro lugar, saber se um grupo de criancinhas foi (ou não) enrabado por um grupo de adultos mais ou menos mediáticos. Em segundo lugar, e este é o facto mais importante na estória, a constatação de que, se existiu enrabanço geral, o maior enrabado foi o Estado português; as criancinhas estavam à nossa guarda, numa instituição Estatal, que as deveria proteger e não o terá feito – A Casa Pia.

Estas quanto a mim são constações triviais: um grupo de miúdos poderá ter sido enrabado por um grupo de adultos e os miúdos estavam sob a tutela do Estado. Terá sido, não terá? Pouco me importava quando o caso saltou para as primeiras páginas e pouco me importa agora, quando se encontra virtualmente estagnado. Contudo, essa não foi a reacção da grande maioria do nosso povo. O processo Casa Pia despoletou paixões, inflamou argumentos, deitou por terra o nosso edifício judicial e auto-imolou-se numa orgia mediática sem paralelo.

A curiosidade mórbida, pornográfica, alimentada pelos media de forma escandalosa, revela no entanto algo que me parece importante salientar: vivemos numa sociedade que convive muito mal com o sexo. Numa sociedade que se escandaliza, que se horroriza, que se flagela, porque meia dúzia de gajos mais ou menos importantes terá enrabado meia-dúzia de meninos menos importantes. Que o fenómeno da pedofilia nos perturbe, consigo compreender. Que ele suscite um clamor irracional de vozes, manifestações, cartas abertas, declarações, processos de intenções julgamentos na praça pública, isso, já não consigo.

Talvez um exemplo práctico explique melhor o que pretendo dizer: enquanto indivíduo sempre gostei imenso de crianças. Regra geral as crianças são belas e (na sua maioria) ainda não adquiriram aquela patine de cinismo que só a experiência nos proporciona. O que quero dizer é que antes deste episódio pornográfico da Casa Pia, muitas vezes, ao cruzar-me na rua com crianças lhes dirigia algumas palavras, sorrisos e até uns afagos. Depois da Casa Pia deixei de o fazer. Passei a ter medo de o fazer. A polícia moral estava em todo o lado e um passo menos atento podia ser a perdição. (Parece que estou a ver o vizinho do Primeiro esquerdo a trocar com a vizinha do Segundo Direito um olhar cúmplice de confirmação: “O gajo é pedófilo.”)

O processo arrastou-se, e arrasta-se e provavelmente irá ficar em águas de bacalhau. Convém então colocar a pergunta essencial: a quem beneficiou o crime? À Justiça portuguesa? Aos réus? Às “vítimas”? Falso. O processo pornográfico beneficiou à meretriz de serviço TVI e às suas correlegionárias; aos actores porn até então desconhecidos que dão pelo nome de provedora, advogado, e ex-vítimas granjas e namoras; finalmente, o processo beneficiou a quem de direito que, enquanto o povo avidamente sorvia a pornografia, ia fazendo pela sua vidinha. Ou como se diz de há muito: com papas e bolos se engam os tolos. Neste caso com pornografia.

Comments:
E vai acabar por beneficiar alguns dos arguidos que nem sequer vão ser condenados...pelo contrário, ainda vão acabar por pedir chorudas indemnizações e lá vai o estado (nós) entrar pela madeira dentro...
 
Subscrevo inteiramente a opinião da Robina.
E isso de teres receio de te aproximar das crianças, conheço muito boa gente que deixou de o fazer por medo.;)

Bom post, sim senhor!;)
 
Tocás-te na ferida qundo dizias que se convive mal com o sexo. Eu dá-me a sensação que o escandalo tem menos a vêr com pedofília e mais com homofobia. Quero dizer: se o abuso tivesse sido entre homems e raparigas de 12-13 anos será que haveria um escandalo desta envergadura?
 
Cara Robina,

Parece-me que estás a cair em erro.

O princípio cardinal de um Estado de Direito como aquele em que vivemos é o da presunção da inocência.

É claro também que a Justiça é a maior baixa do processo casa pia.

São os réus culpados; não o são? Não o sabemos nem nos caberia a nós fazer o julgamento na praça pública.

Infelizmente, os actores porn desta estória, juntamente com as meretrizes de serviço, com a conivência de funcionários públicos espertalhões que todos os dias faziam do segredo de justiça uma piada sem graça, fizerem esse julgamento e nós acreditámos.

Não sei se os réus são culpados ou não. Por causa de tudo o que se passou nunca o saberei. Uma coisa, contudo, é certa, como refere o goncaluskas a nossa sociedade "nada" em homofobia e assim as reputações desses homens foram destruídas para sempre.

Subscrevo a pergunta que o goncaluskas coloca.
 
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